O declínio dos reis do mangue

Robalo Flexa, 8 Kg devidamente devolvido ao mar

O robalo é um dos peixes mais cobiçados pelos pescadores esportivos do Brasil, em virtude, principalmente, da dificuldade de sua captura e pela briga que proporciona, exigindo profundo conhecimento e destreza dos pescadores. Existem várias espécies de robalo pertencentes à família Centromidae, representada por 13 espécies do gênero Centropomus.

No Brasil são encontradas apenas quatro espécies:

 

Robalo Flecha
(Centropomusundecimalis)

 

 

Robalo-Peva
(Centropomusparallelus)

Robalo Trick
(Centropomusensiferus)

Robalo Rarpon
(Centropomuspectinatus)

O robalo peva e a segunda maior espécie encontrada em nossas águas podendo chegar a 80 cm de comprimento e ultrapassar 5 kg de peso. Enquanto as duas outras espécies dificilmente ultrapassam os 30 cm de comprimento e 700 gramas de peso.
Os robalos são atualmente bastante divulgados pela pesca esportiva, principalmente pelo desenvolvimento do segmento de iscas softs como camarões artificias pelo mercado nacional, que literalmente revolucionou a pesca destes peixes aqui no Brasil.
Durante as últimas décadas é visto e documentado um nítido declínio nas populações destes peixes, como também no tamanho de captura e as causas para isso são muitas.
Os robalos são muito explorados pela pesca artesanal no sudeste e sul do Brasil, devido à alta qualidade da carne sendo considerada nobre pela gastronomia. Por este motivo, frequentemente os robalos são submetidos a excessivos esforços de pesca devido ao seu elevado valor comercial.
E cada vez mais raro ver exemplares de grande porte em nossas águas, principalmente relacionado à pesca indiscriminada durante o período reprodutivo quando formam cardumes. Uma prática de pesca extremamente danosa a estes peixes
são os arrastões de praia e o cerco de mergulho, que de uma só vez conseguem matar uma grande quantidade robalos.



Já presenciei em Paraty, no litoral sul do Estado do Rio de Janeiro, um cerco de mergulho capturar mais de duas toneladas. São praticas de pesca predatórias que devem ser proibidas em pró da preservação destas espécies.
Além disso, outro fator que tem contribuído para depleção dos seus estoques é a acentuada destruição dos estuários, através das dragagens e aterramento de áreas de manguezal, local de fundamental importância para seu ciclo de vida. Outro fator observado é a pulverização de herbicidas e pesticidas de forma indiscriminada para controle de pragas em lavouras próximas a rios, o que provoca alta mortalidade em larvas e alevinos.
As medidas de preservação destas espécies no território nacional demonstram-se insuficientes e ineficientes. O Brasil possui mais de 8000 quilômetros de costa e a ampla distribuição geográfica dos robalos no litoral, o que pode acarretar variação no seu período reprodutivo em função do gradiente latitudinal e diferenças climáticas, sendo este fato verificado em vários trabalhos científicos.Isto demonstra a importância de estudos locais para servirem como subsídio para a criação e normatização de um período de defeso reprodutivo de acordo com as características regionais. No território nacional existem apenas três períodos de defesos relacionados ao período reprodutivo decretados, sendo dois de âmbito federal estabelecidos pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA) para os estados da Bahia e Espírito Santo, e um de âmbito estadual para o Paraná, os quais proíbem por tempo determinado a captura e comercialização de espécies do gênero Centropomusem águas litorâneas e continentais.

DEFESO:
O defeso da Bahia é estabelecido pela instrução normativa do IBAMA Nº 49/1992, o qual proíbe a pesca do dia 15 de maio a 31 de julho de todos os anos.
O defeso do Espírito Santo é estabelecido pela portaria do IBAMA Nº 10/2009, proibindo a pesca do dia 1 de maio a 30 de junho.
O defeso do estado do Paraná, foi decretado pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Paraná, através da resolução 060/2008, proibindo a pesca comercial do robalo-peva e para o robalo flecha de 1 de novembro até 31 de dezembro.

Entretanto, os robalos possui uma particularidade em sua biologia que torna esse tipo de medida não muita eficiente. Estudos revelaram que estas espécies são hermafroditas protrândricas, isto é eles são machos no começo da vida e quando atingem certo tamanho e idade eles trocam de sexo se transformando em fêmeas pelo processo de transição sexual.
Com isso os machos sempre serão os peixes menores e as fêmeas os maiores. No caso do robalo-peva foi verificado que as fêmeas são os peixes acima de 35 cm e no robalo flecha as fêmeas acima de 75 cm. Isso demostra que comprimento de primeira maturação não é a melhor medida para gestão do manejo natural quando se trata de uma espécie hermafrofita.

A pressão de pesca em cima das fêmeas devido ao seu maior tamanho pode levar ao declínio da população interferindo na desova e afetando assim a sobrevivência da espécie. Uma medida cabível para o manejo e conservação de espécies hermafroditas protrândricas é a criação de um tamanho mínimo de captura assegurando que machos consigam passar pelo processo de transição sexual e de um tamanho máximo de captura, garantindo a sobrevivência de grandes fêmeas com maior produção de ovos. Esta estratégia de manejo já é utilizada na Flórida-USA, sendo considerado atualmente o melhor modelo de captura aplicado a pesca de robalos. Como no Brasil não existe ainda nenhum instrumento legal quanto a isso, cabe a nós termos o bom senso e adquirir a cultura de soltarmos os grandes exemplares já que são as fêmeas garantido assim a sobrevivência destas espécies para as gerações futuras. Uma fêmea de grande porte vale muito mais viva do que morta na geração de renda para um guia de pesca, para o turismo local e para o comércio de materiais de pesca.Os Estados Unidos está anos luz quanto a programas de preservação de espécies.As espécies de robalos foram exploradas comercialmente até 1957
na costa da Flórida-USA, o que levou ao declínio destas populações, levando o governo do estado a estabelecer restrições na pesca comercial. Em 1982, os robalos foram considerados espécies de preocupação especial. Devido esse histórico de sobre pesca a Flórida possui atualmente as melhores medidas para regularização da captura da espécie, sendo protegida por lei e apenas permitida a pesca esportiva através de cotas de captura estabelecidas, além de um período de defeso determinado. Temos que parar com a cultura de nada acaba, para preservamos estas importantes espécies do nosso litoral.

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